A trajetória do MC Shaw passa por um momento produtivo do hip-hop carioca, vivido como integrante do coletivo Quinto Andar, muda de rumo empurrada pela necessidade de ganhar o pão em um estúdio e deságua em seu apartamento, em São Paulo, onde restaura gravações antigas de música orquestral russa e constrói beats e rimas como os que saem do forno em seu segundo disco solo, "Orquestra Simbólica".
Trata-se de uma bem-vinda adição à estante de hip-hop autoral, que discute tanto cidadania e corrupção quanto questões de identidade pessoal (lá por meados do disco, surge o Shaw diabólico em conflito com o santo), e tem também um punhado de beats inteligentes, como O Mago, que apontam o rap nacional para direções mais abstratas, calcadas em experimentações sonoras em vez de enfadonhos samples de soul music (curiosamente usados extensivamente por Shaw no disco, mas de maneiras menos óbvias das que costumamos ouvir).
"Uma vez, minha mulher me mostrou um discurso do presidente da Coca-Cola que tinha muito a ver com o que eu estava fazendo. O cara falava da necessidade e dificuldade de equilibrarmos nossa vida profissional, amorosa, saúde, e comparava isto a uma orquestra, em que todos os instrumentos têm de funcionar em sincronia. A partir daí, busquei trabalhar sobre o tema de uma 'Orquestra Simbólica', em que um personagem principal tenta se equilibrar entre esses aspectos de sua vida."



